Enfim, depois de 3 anos e 3 meses, é hora de dizer tchau.
Mas não posso simplesmente te dar um adeus seco. Muito pelo contrário. Tivemos muita história juntos nesse tempo todo, e pode ter certeza que vou sempre me lembrar de ti.
Nunca tive um carro por tanto tempo assim, e logo tu conseguiu esta façanha, afinal, é um carrinho que nem o que eu queria quando te comprei.
Vindo de dois sedãs importados e potentes, um Neon 2.0 e um Megane também 2.0, naquele maio de 2006 eu procurava um carrinho mais novo, que eu pudesse bancar o seguro. Minha ideia era um Clio ou um 206 2002, completo e com motor 1.6.
Mas não achava nada do meu agrado, até que tu apareceu. Na real, tu nem estava à venda na loja, era o carro da esposa de um dos sócios, mas era do jeito que eu queria. Haviam dois poréns: o teu motor era um 1.0 e teu ano era 2004, com o valor acima do que eu pretendia gastar.
A teu favor, estava o teu estado, impecável, com jeitinho de zero km, e a conseqüente economia que o teu motor traria.
Depois de muita, mas muita negociação mesmo, resolvi encarar e ficar contigo, (afinal, simpatizei muito contigo desde o primeiro momento) dando o Megane na troca, mais uma grana, e assumindo um grosso carnê de 36 prestações.
No começo estranhei a falta de potência do teu motor, as trocas de marcha em rotação mais alta e a falta de mimos que os meus carros anteriores tinham, como vidros elétricos nas 4 portas (não somente nas dianteiras), retrovisores elétricos, bancos com um tecido melhor...
Mas fui acostumando e por todo esse tempo, tu supriu praticamente todas as minhas necessidades quanto à carros, mesmo com teu porta-malas pequeno.
Teu seguro sempre foi acessível (algo muito importante), teu tamanho compacto fácil de estacionar, e tua resistência, louvável. Tanto que participamos até de rally. Duas vezes, inclusive. E não fizemos feio, um nono e um décimo terceiro lugar, bons resultados para um carrinho "mil" e um piloto que nunca tinha feito rally antes na vida.
Também nunca me deu problemas de manutenção, que eu lembre, foram apenas trocadas coisas simples: os pneus dianteiros, bateria, buzina, bobina, velas e mais o básico: óleo e filtros.
E andamos bastante. Foram cerca de 35 mil quilômetros nesste tempo todo. Em Porto Alegre, nas cidades da região metropolitana e no litoral.
Não chegamos a viajar mais para longe, pois quando fui ao interior e mesmo ao Uruguai neste período, fui de carona. Não que não acreditasse no teu potencial, pelo contrário, mas foram questões de ocasião mesmo.
Na estrada, tu nunca fez feio, fizemos idas e voltas ao litoral com conforto e segurança, apesar do teu motorzinho ter que andar sempre com o giro alto (praticamente gritando), e mesmo com o ar-condicionado ligado continuava sendo econômico.
Teu motor é guerreiro, e na minha opinião o segredo dele ser bom é o fato dele não ser feito pela Peugeot, e sim pela Renault. Desculpa, não é por mal, mas acho que a Renault sempre teve melhor acabamento e motorização, pelo menos nos carros vendidos no Brasil. (Não, por favor não compara o acabamento de Logan e Sandero, que aqueles pés-de-boi não são Renaults de puro-sangue, são criações romenas da Dacia feitos para custarem pouco em países pobres).
Mas, enfim, fomos à muitos lugares diferentes, dentista, hospital, médico, trabalho, futebol, sítios, aulas, festas, restaurantes, motéis, shoppings, aos kartódromos de Tarumã e também do Velopark, onde te trocava por alguns momentos por karts de 9hp...
Só que a nossa relação estava desgastada já. Como te disse, nunca fiquei tanto tempo assim com um carro antes. E não é nem que tu estivesse incomodando, mas já era hora de tu seguir outro caminho, quem sabe, alguém que te cuide melhor. Porque eu sei que não te tratei tão bem assim.
Talvez seja até inconsciente, por tu ser meio inferior aos que vieram antes de ti, ou talvez até pela relação desgastada, um cansou do outro, sei lá.
Mas ao contrário do que meus amigos me sugeriram, não fui te largando assim, fácil. Desde fevereiro busco algo digno para te substituir. E principalmente, que tu seja valorizado nesta troca.
Dificilmente eu conseguiria um valor justo por ti, não porque tu não valha, mas é que o mercado de usados ficou uma merda com a crise internacional e com a consequente baixa dos zero quilômetro, com redução de IPI, descontos e financiamentos até com juro zero.
Só que enquanto não achasse algo legal pra te substituir e que te avaliassem com um mínimo de justiça, fiquei firme e forte contigo. Por questões financeiras, queria te trocar antes do final de junho, quando vencia o teu IPVA e também o seguro.
Não tive propostas honestas por ti, então aguentei no osso, paguei o IPVA e o seguro e continuei na procura. Sem pressa, porque apesar da relação desgastada, tu continuava me servindo, e bem.
Mas semana passada, mais precisamente na sexta-feira, eu tomei minha decisão. Como o mercado de usados está muito ruim, resolvi te trocar por um carro zero, até para aproveitar as facilidades que eu falei antes.
Então, fui em revendas de várias marcas, quase todas (Chevrolet não porque não tem nada que me agrade, e Toyota, Hyundai e outras marcas de carros caros por questões de grana, mesmo). Me impressionei com a má qualidade de alguns carros e com o valor baixo que algumas marcas queriam dar por ti.
O melhor exemplo é o Renault Sandero, que, como falei antes, é um carro muito pobre e caro pelo que oferece, me lembrou o Celta básico que meu irmão tinha alguns anos atrás e que eu achava uma porcaria. Outro exemplo é o Fiat Punto, um carrinho bacana, moderno, mas com muito plástico e um motor fraquinho...
Então no sábado, em uma concessionária, me encantei com um carro. Que muito me lembrou meus antigos Neon e Megane, em tudo: conforto, potência, beleza, prazer ao dirigir... É, amigo, desculpa, mas nunca neguei que eu gosto de sedãs. E de carros completaços, sabe? Aqueles que vem tudo de fábrica. Como era o meu Neon. Como era o meu Megane.
Sim, o carro era importado (como o Neon e o Megane), já que nas marcas nacionais quase tudo é opcional. Mas não adiantava só eu ter gostado do carro, eles tinham que te valorizar. Inicialmente, queriam dar pouco por ti. Mas conversei, insisti, falei das tuas qualidades (afinal, é difícil achar um carro da tua idade com a tua quilometragem e o teu estado de conservação), e chegamos a um acordo bom. Afinal, eles pagaram por ti 33% a mais do que, por exemplo, a Renault queria pagar.
E isso, amigo, é muito dinheiro. Sem falar em números, com essa grana dá para comprar uma moto como a minha, zero quilômetro, à vista. (Falando nisso, sei que tu teve certo ciúme da motoca, que eu comprei 6 meses depois de ti, e que nos meses de calor eu usei muito mais ela do que tu, mas tu sabe que eu gosto de moto, e que ela é mais prática e econômica, principalmente para ir ao trabalho. Mas reconheço que tu te comportou e nunca reclamou de dividir o canto na garagem com ela).
No fim das contas, amigo, é isso. Hoje, dia 6 de agosto, eu me despeço de ti. Triste, pois apesar do relacionamento estar desgastado, fomos muito felizes juntos, e isso não vai mudar. Tu faz parte da minha história (e também de pessoas próximas a mim) e eu sei que vou fazer parte da tua.
Te agradeço por tudo, espero que seja muito feliz, pra onde quer que vá, e que eu consiga ser feliz com o teu sucessor como fui feliz contigo.
Sem mágoas, sem ressentimentos, não tem porquê. Ficam só coisas boas. Espero te ver por aí no trânsito, e que teu novo dono (ou nova dona) seja cauteloso(a), também só te trate com gasolina aditivada e óleo semi-sintético e assim como nós, não tenha multas ou acidentes.
